MÍDIA A PRODUZIRART · CAPA

Arquivo de uma empresa real

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Em maio de 2026, a empresa de software Onyx publicou no arXiv um conjunto de dados incomum: pouco mais de meio milhão de documentos de uma empresa que não existe. Mensagens internas, e-mails, registros de CRM, transcrições de reunião, chamados de suporte, páginas de wiki. Junto vieram 500 perguntas que um funcionário faria num dia normal de trabalho e um programa que confere, resposta por resposta, se o sistema avaliado acertou.

O nome é EnterpriseRAG-Bench. Dois detalhes me fizeram olhar duas vezes. O primeiro: a Onyx vende um produto do mesmo tipo e escreve, no próprio repositório, que se exclui do placar para evitar conflito de interesse. O segundo: quem quiser entrar precisa provar que o resultado é reproduzível — quem tem código aberto entrega o passo a passo, quem é fechado entrega acesso ao sistema no ar para que a Onyx refaça as perguntas por conta própria.

Em agosto submetemos nossa busca em documentos ao EnterpriseRAG-Bench. O resultado foi 71,93 pontos, acima das configurações avaliadas de OpenAI File Search (61,03), Amazon Q (48,96), Azure AI Search (48,42), Vertex AI Search (41,87) e NVIDIA AI Blueprints (37,73). A Skyller entrou em 2º lugar em 12 de agosto de 2026 e aparecia em 4º entre 22 sistemas na consulta de 6 de setembro, com a mesma nota. A comparação vale para as configurações e o acervo do teste; não classifica todos os produtos do mercado.

O que um teste desses realmente faz

A tentação, quando alguém fala em avaliar inteligência artificial, é imaginar prova de vestibular: matemática, lógica, redação. Não é nada disso. O acervo é montado para parecer uma empresa de verdade, com todos os defeitos: arquivos guardados no lugar errado, versões antigas convivendo com as novas, quase-duplicatas espalhadas por sistemas diferentes e documentos que se contradizem abertamente.

As 500 perguntas estão separadas em dez tipos. Tem a pergunta fácil, com resposta num único documento. Tem a pergunta que ninguém escreveria com as mesmas palavras do arquivo. Tem a que exige juntar pedaços distantes de um documento longo. Tem a que só se responde reunindo tudo o que existe sobre um projeto. E tem um grupo de vinte perguntas cuja resposta simplesmente não está no acervo — a assistente precisa dizer que não encontrou, em vez de inventar algo plausível.

Esse último grupo é o que eu mais valorizo, e é o mais raro de ver medido. Toda empresa que já colocou IA para responder sobre documento interno conhece o problema: a resposta bonita, bem escrita, confiante — e errada. Um teste que pontua o "não está aqui" está medindo confiabilidade, não eloquência.

O programa que corrige não é do fornecedor avaliado. Ele compara a resposta com uma resposta esperada e com uma lista de fatos que precisam aparecer. Depois olha os documentos que o sistema trouxe e decide, por votação entre três avaliações independentes, quais eram realmente necessários.

Por que quase todo número de qualidade não serve

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Reunião conferindo um número

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No mercado de software corporativo, número de qualidade costuma nascer dentro da casa de quem vende. O fornecedor escolhe o conjunto de perguntas, escolhe o critério de acerto, roda no próprio ambiente e publica o resultado num material comercial. Não há como o cliente verificar nada — e, sendo honesto, não há como o fornecedor provar que não escolheu o teste em que ia bem.

Já vi comparativos em que o concorrente foi configurado por quem estava comparando. Já vi percentual de precisão sem denominador: precisão em quantas perguntas, feitas por quem, sobre qual acervo. E vi muito número sem data, o que é uma forma elegante de nunca ficar desatualizado.

O teste da Onyx resolve isso de um jeito simples: publica tudo. O acervo, as perguntas, as respostas esperadas, o programa de correção e o placar com o histórico. Quem duvida do nosso resultado pode baixar o material e refazer a conta. Quem duvida do resultado de um concorrente, também.

O que precisa existir na prática

Se você está avaliando ferramentas de IA para a sua empresa, esses são os mecanismos que separam evidência de propaganda. Nenhum deles depende de vocabulário técnico.

Um conjunto de dados público. Se o teste roda sobre documentos que só o fornecedor tem, o resultado não é verificável. Pergunte onde estão os dados e quem mais pode usá-los.

Um corretor que não pertence a quem está sendo avaliado. O programa que decide se a resposta está certa precisa ser o mesmo para todos os participantes, e de preferência escrito por um terceiro.

Reprodutibilidade exigida na entrada. Um placar sério não aceita um arquivo de respostas e confia. Ele pede o caminho para refazer o teste — no código, se for aberto; no sistema no ar, se for fechado.

Data ao lado do número. Placar é um retrato de um dia. A posição de agosto não vale em dezembro, e quem repete a posição antiga sem a data está, na prática, informando algo falso.

A nota inteira, não o recorte bom. Média geral esconde o que importa. O resultado por tipo de pergunta mostra onde a ferramenta é forte e onde ela vai deixar o seu time na mão.

O teste rodando no produto que você vai usar. Existe uma distância enorme entre um resultado de laboratório e o comportamento do produto no ar. Nossa submissão passou pelos mesmos endereços públicos que os clientes usam todo dia. A Onyx não se contentou com o arquivo: mandou 80 perguntas que nunca tínhamos visto e conferiu as respostas antes de publicar.

O que o resultado mostrou

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Procurando o arquivo certo

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Nos vinte casos em que a informação não existia no acervo, acertamos os vinte: a resposta esperada era dizer que não encontramos. Esse resultado é restrito à categoria avaliada e não garante ausência de erros em outras perguntas. Nas perguntas que exigem juntar trechos distantes de um documento longo, a nota foi 83,33; em documentos informais e mal organizados, 85,00.

Há dois tipos em que ainda temos espaço para crescer: reunir todos os documentos relevantes sobre um assunto sem deixar nenhum de fora (32,08) e agregar documentos de um projeto inteiro (50,89). São as frentes em que a equipe está trabalhando desde a publicação.

Esses dois números estão publicados no mesmo arquivo que os demais resultados. O registro permite conferir os pontos fortes e as limitações da configuração avaliada. Novas versões e outros ambientes precisam de nova medição; o resultado desta submissão permanece como evidência datada.

Uma última observação sobre leitura de placar. Nossa nota não mudou um décimo entre agosto e setembro; a posição mudou porque três sistemas novos foram publicados, dois deles acima. Isso é o funcionamento normal de um placar aberto, e é a razão pela qual eu desconfio de qualquer material comercial que exiba uma colocação sem dizer de quando ela é.

Três perguntas para levar à próxima reunião

  1. Quem calculou esse número e onde está o dado? Se a resposta for "nosso laboratório interno", trate como estimativa do fornecedor, não como medição. Peça o endereço público.
  2. Qual é a data e quantos sistemas estavam na lista? Posição isolada não informa nada. Quarto entre 22 e quarto entre 5 são resultados completamente diferentes.
  3. Onde a ferramenta foi mal? Fornecedor que só mostra as notas boas escolheu o recorte. Peça o resultado por tipo de pergunta e leia primeiro a linha de baixo.

Um teste público não substitui a experiência com os seus arquivos, no seu idioma, com as perguntas da sua equipe — e essa parte é gratuita, dá para fazer numa tarde. O que o placar faz é outra coisa: separa quem aceita ser medido por um terceiro de quem prefere ser medido por si mesmo.

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